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CRÔNICA
Delícia e dificuldade de escolher ofício
Ignácio de Loyola Brandão
Disse meu pai:
- Agora, filho, está na hora de escolher um ofício.
Ele sempre dizia ofício. Achava uma palavra que dignificava o trabalho, ou profissão. Jamais disse emprego. Emprego é para o sustento. Trabalho inclui o sonho.
- Tenho 16 anos, é cedo, pai. Como saber o que fazer? Não é melhor eu crescer mais, esperar um pouco, pensar?
- Quanto mais cedo, melhor, você amadurece a ideia.
- É preciso?
- Você não é obrigado. É só um conselho de quem já viveu mais do que você. Pense, pergunte aos seus tios, aos professores, a gente que já trabalha.
Comecei pelo barbeiro, era o mais próximo, ficava na esquina de casa. Boa pessoa, discutia política, futebol, religião, sabia da vida de todo mundo. Mas, pensei, trabalhar em pé, o dia inteiro? E se eu cortasse a orelha de alguém? Não, barbeiro, não. Em frente, ficava o vendeiro. Mas uma venda naquele tempo tinha uns cheiros esquisitos como o do bacalhau seco em caixotes, da cebola que apodrecia no fundo do saco, do fumo de corda que ficava em cima do balcão, da pinga que caía no balcão quando a dose era vendida. Não, cheiro ruim não é comigo.

Talvez eu pudesse ser farmacêutico, a mulher dele era linda e perfumada, tinha um batom vermelho que enchia a boca. Além disso, farmacêuticos vendiam camisinhas, se eu fosse um, não precisaria comprá-las escondido, como todo mundo fazia.
Dentista. Minha mãe nos levava a cada seis meses. Abrir a boca de uma pessoa, olhar lá dentro, ver um dente ruim, extrair o dente, dar injeção na boca? Terrível. “Mas eu”, dizia com orgulho o Ryal, nosso dentista, ‘”torno as pessoas bonitas, para elas sorrirem, ganhando confiança. Todo mundo gosta de quem sorri.” Não, não era para mim. Acabei casando com a filha do melhor cirurgião-dentista (assim se dizia quando o cara era bom) da cidade, professor da faculdade de Araraquara.
Sorveteiro, isso sim. Fazer sorvetes, viver em um ambiente fresquinho (nossa cidade era quente demais), poder tomar quantos quiser, atender as moças bonitas que no verão chegavam decotadas e fresquinhas, cheirando sabonete. Todavia viver a vida atrás de um balcão? Fazendo força com aquela pá no tacho que girava e girava? Bonito, mas cansativo. Hoje quase não existem sorveteiros artesanais, vem tudo pronto das grandes indústrias.

Fui olhando, vendo, conversando e descartando. Açougueiro? Imagine cortar pedações de bois que estavam pendurados em ganchos enormes. E o sangue? O cheiro do sangue. Alfaiate? Era uma ideia. Fazer roupas para as pessoas trabalharem, irem às festas, aos casamentos, formaturas. Gostava muito do ruído que a tesoura fazia quando cortava uma casimira inglesa. Mas ter que tirar medidas dos homens, colocando o metro ali embaixo, junto das partes intimas? Eu não!
Cada noite, meu pai perguntava: pensou em alguma coisa? Eu respondia que estava conversando (não sabia que aquilo era pesquisa) e ele animando: vá ao comércio, ao banco, à caixa econômica (tudo era caixa econômica, todo mundo queria trabalhar ali). Ele propunha coisas que eu nem sabia o que era.
Meteorologista? Que tal saber o tempo mais do que os outros?

- Só que vovô olhando o céu, sabe quando vai chover, ventar, lê as nuvens.
- Contador? Todo comerciante precisa de um.
- Contador, contador... quem sabe.

Pensava: o que faz um contador? Uma ideia que me agradava era ser guarda-noturno, ou vigilante como alguns diziam. Ficar rodando de bicicleta à noite, pelas ruas desertas, apitando de quadra em quadra. Delícia, fácil! Astrólogo era outra coisa boa, foi o professor de geografia que me indicou. Ter uma luneta, um telescópio, passar a vida olhando o céu, as estrelas. Havia uma canção muito tocada no rádio que dizia uma coisa que eu não entendia. Se fosse astrólogo compreenderia? “Pisavas os astros distraída”. Como pisar os astros? Só se ficar de cabeça para baixo.

Passava ano, eu nada. Meu pai insistente. O que eu podia ser? Maquinista da ferrovia? Viajar de graça para todo lugar? Aeromoço? Não havia ainda, eram todas aeromoças, hoje são comissárias de bordo. Enfermeiro? Ficar tratando de doente? Precisa disposição e desprendimento. Esta palavra foi minha mãe quem disse. Gerente de vendas? Eu nem sabia vender as figurinhas de futebol que tinha para troca, nem as bolinhas de gude, nem os gibis lidos.

Assim, fui crescendo, chegando aos 20 anos sem nada definido. Advogado? Era bonito nos filmes de tribunal. Médico legista? Que horror, cortar cadáver. Ainda que anos mais tarde eu tenha visto um seriado americano, Crossing Jordan, em que a profissão era glamorizada. Economista? Nunca resolvi uma equação de matemática. Administrador? A empresa iria à falência. Me aconselharam mil coisas. Técnico em citopatologia, ortopedista, podólogo, carnavalesco (esta é boa, ficar perto da rainha da bateria), pipeline de talentos, abatedor de aves em granjas, fiscal, fabricante de queijos, ter uma empresa de alugar andaimes, relojoeiro, pescador (podia chegar a ministro da pesca), pedreiro (construir casas para o povo morar, minha casa minha vida).

Nestes anos todos em que procurei – e afinal encontrei meu oficio – tive vontade de ser jogador de futebol, cantor de rádio, padeiro – ninguém resiste ao cheiro de um pãozinho saindo do forno – barman, pasteleiro e, evidente, vendedor de caldo de cana, um não caminha sem o outro. Tirador de chope, barista e à medida que os anos andaram, fui querendo mudar, pensei em computação, informática, blogueiro, criador de sites, analista de sistemas, criador de aplicativos, gestor de mídias sociais. Na verdade, há muito tempo descobri meu oficio. Um ofício tem de ser paixão, sonho, loucura, divertimento. Sou contador. Um contador de histórias.

Ignácio de Loyola Brandão nasceu em 1936, é escritor, tem 41 livros publicados e é cronista do jornal O Estado de S. Paulo.
 
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