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Exuberância da Mata Atlântica ganha bancos de dados abertos
Iniciativa de ecólogos da Unesp em Rio Claro vira referência para comunidade científica
Eduardo Geraque, especial para UnespCiência
04/01/2019
Os artigos científicos que apresentam os dados para a comunidade mundial foram publicados ao longo do ano de 2018 na revista Ecology

A exuberante biodiversidade da Mata Atlântica está ainda mais escancarada após um trabalho inédito de um grande grupo de pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Os cientistas resolveram fazer uma força tarefa para mapear, com base na literatura e até em trabalhos ainda não publicados ou pouco conhecidos, a biodiversidade de vários grupos animais que vivem em uma das cinco áreas mais biodiversas do planeta.

Como resultado, a região agora tem um conjunto com milhares de dados organizados em grandes arquivos totalmente abertos para a comunidade científica e para os tomadores de decisão em geral. Apesar das modificações que o bioma sofreu, os 12% de floresta atlântica original que ainda existe no Brasil, de um total de 150 milhões de hectares que havia antes da colonização portuguesa, é um manancial de vida e de relações ecológicas que precisam ser muito melhor conhecido pelos pesquisadores.

“A Mata Atlântica tem sido historicamente super bem estudada, mas seus dados acabavam ficando dispersos na literatura científica. Mesmo em documentos não publicados”, afirma Milton Cezar Ribeiro, professor do Departamento de Ecologia da Unesp em Rio Claro, um dos vários autores da iniciativa de compilar os dados sobre a Mata Atlântica. “Agora, o bioma virou uma referência de como a comunidade científica e as instituições de pesquisa podem mudar a filosofia de uso e acesso de dados. Este processo nos coloca na liderança do contexto ‘Open-Mind + Open Data = Open Science’”, diz o ecólogo, que organizou a iniciativa ao lado do também ecólogo Mauro Galetti, outro pesquisador da Unesp de Rio Claro.

Os artigos científicos que apresentam os dados para a comunidade mundial, os chamados data-papers, foram publicados ao longo do ano na revista Ecology. No total, o trabalho nomeado de “Atlantic Series”, em inglês, apresenta dez artigos científicos que reúnem dados de vários grupos de animais que vivem na Mata Atlântica. Desde os primatas e outros mamíferos até os anfíbios e as borboletas.

“Apesar de todas as modificações [que o bioma sofreu], os data-papers têm mostrado que a Mata Atlântica mantém uma biodiversidade ímpar. Estes dados abrem novas perspectivas para se entender como as espécies e os processos ecológicos têm se mantido ao longo do espaço e do tempo”, diz Ribeiro.

No caso dos primatas, um dos grupos animais mais bem estudados, entre outros motivos por causa de sua aproximação evolutiva com os seres humanos, a força tarefa organizou os dados de 5.472 pontos georreferenciados onde os primatas já foram identificados. Este número abrange a ocorrência de 26 espécies nativas e 1 introduzida. A floresta atlântica da América do Sul tem exatamente 26 espécies de primatas, sendo 19 delas endêmicas. O conjunto de dados mapeados pelo grupo de estudo inclui 700 comunidades de primatas, espalhadas, além do Brasil, pelo Paraguai e pela Argentina, onde o bioma também existe. Os registros englobam estudos feitos entre 1815 e 2017. Por isso, algumas comunidades plotadas no mapa podem não existir mais.

Em termos globais, as estimativas dos pesquisadores indicam que 55% das 496 espécies de primatas do mundo são ameaçadas de extinção. E 75% tiveram algum grau de declínio populacional. A Mata Atlântica, e o Brasil, é o bioma que mais tem diversidade de primatas no mundo. A perda de floresta é a maior ameaça para os animais deste grupo. Mas a caça, os atropelamentos e as doenças infecciosas, como a febre amarela, também prejudicam as comunidades.

O modelo de estudo e de metodologia usados para os primatas também foi repetido para as borboletas, os pássaros e os morcegos. E até para vários grupos de outros mamíferos, sejam eles de pequeno ou médio porte. Em alguns casos, tanto o tamanho quanto o peso do animal entraram nos registros de dados. Há um artigo que descreve o conjunto de informações compiladas de relações entre espécies frugívoras e plantas.

“Estes banco de dados também são uma forma de retorno para a sociedade, que investiu muito para que ocorressem as coletas de dados e os monitoramentos de espécie. Agora, todos têm a oportunidade de ter acesso a informações que antes eram pouco acessíveis”, diz Ribeiro.

Todos os dados organizados agora nos bancos de dados abertos foram coletados ao longo de décadas em que a Mata Atlântica, até por estar principalmente no litoral brasileiro, região de grande ocupação humana, sofreu bastante pressão. Um processo complexo, que envolve várias causas, mas que pode ter uma história diferente nas próximas décadas.

Em 2017, os dados de destruição da floresta registrados pelo mapeamento anual da ONG SOS Mata Atlântica e do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostrou a menor perda florestal desde os anos 1980, quando começou o acompanhamento sistemático das ameaças ao bioma atlântico. De acordo com relatório da ONG, em dois terços dos estados brasileiros onde existe Mata Atlântica, o desmatamento anual caiu, contando as quatro unidades da federação que mais desmataram (Bahia, Minas Gerais, Paraná e Piauí). São Paulo, e outro seis estados, atingiram o chamado nível de desmatamento zero, com perda de área florestal igual ou inferior a cem hectares.

Apesar de serem números positivos, os técnicos do terceiro setor evitam dizer que existe uma tendência de queda consolidada do desmatamento da Mata Atlântica. A série histórica dos últimos dez anos mostra muita oscilação. Entre 2015 e 2016, por exemplo, a taxa foi quase o triplo do período imediatamente anterior. Enquanto em 2017 caíram 12,6 mil hectares, no ano anterior haviam desaparecido do mapa 29 mil hectares. Taxa que era 57,7% maior do que a do ano anterior.

Entre 2015 e 2016, o ciclo de destruição da floresta atlântica, que começou em 1500 por causa dos europeus, voltou a ficar ativo na Bahia. Devido ao desmatamento no sul do Estado, a Bahia foi a campeã nacional de desmatamento da vegetação atlântica. No estado, caíram 12.288 hectares de vegetação, um crescimento de 207% em relação à análise anterior, entre 2014 e 2015. Três cidades do sul da Bahia, Santa Cruz de Cabrália, Belmonte e Porto Seguro, foram responsáveis por metade do valor calculado.

No bioma que se estende, no Brasil, do Rio Grande do Sul ao Piauí, vivem 72% da população brasileira. A queda da floresta atlântica no sul da Bahia impressionou os especialistas da SOS Mata Atlântica, que classificaram o resultado, o pior em dez anos, como “muito triste”.

A retomada da destruição em municípios baianos, curiosamente, remete ao ciclo histórico dos tempos coloniais. Fatores geográficos e socioambientais do desmate não mudaram desde os tempos da chegada dos portugueses.

A primeira missa em solo brasileiro ocorreu na região da atual Santa Cruz de Cabrália. Lá, os índios viviam em meio a uma exuberante floresta. O pau-brasil, logo, virou valiosa matéria-prima e passou a decorar os edifícios civis e religiosos de Portugal. As terras onde a madeira existia se transformou em palcos de batalhas.

Entre 1500 e 1700, as estimativas dos cientistas mostram que mais de 460 mil árvores da espécie que dá nome ao Brasil acabaram ceifadas, do que hoje se conhece como Mata Atlântica.

O desmatamento colonial, que praticamente extinguiu o pau-brasil, envolveu europeus, que faziam a exportação da madeira e os corantes, aos índios, autores do escambo. Mais tarde, os escravos também entraram no processo. Todos os grupos, seja por pressão ou dominação, tiveram participação no aniquilamento do pau-brasil. (reportagem originalmente publicada na UnespCiência)

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