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Artigo: Uma 'maker faire' no Brasil?
Texto publicado em blog do Estadão
Heloísa Pait é socióloga e professora da UNESP.
14/06/2017
Feira 'Maker' em São Francisco, Califórnia

Ela havia me ciceroneado pelas demonstrações científicas, pelos workshops de preparo de chucrute, pelos estandes de artistas que nos convidaram para contribuir com suas obras de arte colaborativas e por tudo o mais que a Maker Faire da Bay Area, a região em torno da baía de San Francisco, na Califórnia, apresentou nesse ano. Como professora, a pergunta natural depois da aula era esta. Como aluna atenta, eu já tinha uma resposta na cabeça. Mas deixe-me antes contar o que é a Maker Faire e o que vi.


Em primeiro lugar, como diz a música, “na Califórnia é diferente, irmão. É muito mais do que um sonho.” A sensação de abertura de oportunidades, de liberdade e experimentação é impressionante. O pioneirismo nos costumes, a inovação nas universidades (foram as primeiras universidades mistas, com homens e mulheres, dos Estados Unidos), a indústria cultural e os avanços tecnológicos fazem do estado americano um pólo de atração para gente criativa e empreendedora do mundo todo – o clima ameno é apenas a cereja do bolo. Você respira esse clima de novidade e ação nas freeways que cortam o estado, como tantos já devem ter falado, nas ruas de San Francisco, apesar do processo de gentrificação, nas salas de aula das universidades da área, onde temas esotéricos sempre encontram interessados, e na história tão recente da região, como se o próprio tempo fosse, na Califórnia, mais rápido que nos outros lugares da Terra.


A Maker Faire começou em 2006 em San Mateo, no Vale do Silício, que é a parte sul da Bay Area, onde hoje moram e trabalham os grandes inovadores do país na área de tecnologia, em empresas consolidadas ou startups que só vamos conhecer em alguns anos. A feira congrega “fazedores” das várias áreas da atividade humana. Há artesanato como o que encontramos nas feiras da Benedito Calixto; inovações comerciais, como armações de óculos feitas sob medida com recursos de computação gráfica; gente que faz coisas por puro prazer, como um piano dos anos 1930s que toca sozinho; e jovens tentando mostrar seus projetos para uma audiência maior.


Gostei muito de um computador feito para crianças que é vendido desmontado: a criança deve montar todas as partes, como se fizesse um castelo de bloquinhos de madeira. Mas, ao final, ela terá um computador que faz coisas simples e tem alguns jogos. Para mim, esse brinquedo completo, que não impressionou minha anfitriã, resumia a relação harmônica que a tecnologia tem na região com os aspectos mais viscerais de nossa experiência humana.


Estavam na feira inúmeras empresas que fazem impressoras 3D, hoje muito baratas, ou produtos para esse tipo de impressão. Carrinhos com a forma de cupcakes ou de cápsulas espaciais circulavam entre nós. Ferreiros resgatavam esse antiquíssimo ofício humano, ao lado de antigas impressoras com tipos móveis. Uma inusitada mistura de tecnologia e diversão me fazia demorar para entender de que se tratava cada atração, pois no meu cérebro, provavelmente, essas coisas todas habitam hemisférios distintos. O que havia em comum entre aquelas pessoas todas é que elas faziam coisas. Tinham orgulho do que faziam. Não estavam em greve.


O site da Maker Faire (http://makerfaire.com/map) mostra mais de 30 feiras ao redor do mundo, nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia; na América Latina apenas duas mini-feiras. Quando pensamos nos bilhões de dólares enterrados em fontes de energia ultrapassadas por nosso governo e num sistema de educação que igualmente desvia a energia criativa de nossos jovens para as ocupações e os concursos públicos, depois de um certo pesar encontramos um alento. E se não carregássemos esses bilhões nas costas? E se nosso sistema educativo apreciasse os makers brasileiros, apoiando-os em sua trajetória? Pois tudo o que fazemos, o fazemos apesar do BNDES. Apesar dos currículos do MEC.


Nem sabemos muito bem quem são esses makers, sabemos? A discussão pública sobre o ensino se dá hoje em torno de debates ideológicos, que passam longe do “fazer”, da educação como trampolim para quem vai construir o amanhã. A educação quer ela mesma construir o amanhã, o que é impossível, ou voltar para trás, o que também é impossível. A introdução da escolha no ensino médio, é verdade, aponta na direção certa, mas no geral nem pensamos nos makers, nas pessoas que com sua inventividade e com o apoio da comunidade vão imprimir sua marca num mundo mais sustentável, mais pujante, mais justo e mais divertido.


Então fica para nós a tarefa de pensar como seria a nossa Maker Faire: quem estaria lá e mostrando o quê. Eu queria ver lá nossa cultura tradicional revalorizada, nossos queijos artesanais e nossas formas tão variadas de preparar – sim, vou falar dela! – mandioca. Eu queria ver, antes de esquecermos, como se constrói uma sela de cavalo e como se escolhem os materiais e as madeiras para cada finalidade, pois o fato é que nós temos, no país, um arsenal de técnicas incrível que nosso bacharelismo não incorporou ao conhecimento oficial.


Eu também quero ver o que nossos engenheiros e biólogos andam fazendo em seus sofisticados laboratórios e que brinquedos emergem, vindos do mundo da ciência, para crianças e adultos. Mas acima de tudo eu quero ver isso tudo junto num espaço só, num grande mercado, numa grande festa, numa grande troca a celebração de nossas capacidades que existem, que estão aí, e que foram tão menosprezadas nos últimos anos. Técnica, mercado, indivíduo, inovação, natureza. São palavras da Califórnia. São palavras do mundo inteiro. São palavras também do Brasil.


Publicado originalmente em:
http://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/uma-maker-faire-no-brasil/


Heloísa Pait é socióloga e professora da UNESP.

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